Cura para a ignorância

Cura para a ignorância
19 de dezembro de 2017 PT Jundiaí

A irreal expressão “cura gay” voltou aos noticiários em setembro, depois que um juiz concedeu liminar abrindo brecha para que psicólogos ofereçam a “terapia de reversão sexual”. E, em 15 de dezembro último, foi publicada sentença de mérito do mesmo processo, praticamente mantendo o entendimento da liminar; ou seja: “possibilitar tratamento da homo e bissexualidade”.

Uma sentença completamente absurda, preconceituosa e ilegal. Tal decisão desconsidera todos os atuais consensos científicos em relação ao tema. Mesmo que quisessem, os psicólogos não têm como “reorientar” afeto ou desejo sexual. A orientação sexual é a complexa combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, observada já nos primeiros anos de vida. Uma vez formada, não é possível revertê-la.

Justamente por isso que a expressão “opção sexual” é completamente equivocada, já que amar e desejar alguém, seja do mesmo sexo ou do sexo oposto, não é uma escolha.

Mas alguns indivíduos acreditam nessa falaciosa “cura gay” e dizem que “é direito da pessoa mudar sua orientação sexual”. Mas ao contrário de parecerem “preocupados” com o bem-estar da pessoa, o que na realidade querem é impor a heteronormatividade como única sexualidade aceitável, entendimento esse que deve ser rechaçado, posto que é leviano e cruel.

De fato, e infelizmente, existem lésbicas, bissexuais e gays que pensam em ver “revertida” a sua orientação sexual. Mas isso acontece por uma única razão: o medo da rejeição da família e da sociedade. Alguns simplesmente não conseguem lidar com esse medo e acabam sucumbindo à imposição preconceituosa, acreditando erroneamente que não mais sofrerão.

Pergunto: é justo impor “tratamento” a uma pessoa que não é doente, usando o medo dela em ser oprimida por uma sociedade homofóbica? O correto não seria a sociedade deixar de lado seus preconceitos, respeitar a Ciência e passar a compreender a homo/bissexualidade como mais uma vertente da complexa sexualidade humana? Ora, se até nos ditos animais irracionais são observadas orientações sexuais diversas, por que conosco seria diferente?

Chega de hipocrisia! Estamos na segunda década do século XXI! Temos acesso à informação com apenas um clique. Assim, não nos cabe mais o direito de permanecer na escuridão quando o assunto é sexualidade e afeto. Se existe alguma cura a promover, com certeza é a cura para a ignorância!

 

* ROSE GOUVÊA é advogada, filiada ao Partido dos Trabalhadores, militante LGBT de Jundiaí há 12 anos e presidente da Comissão da Diversidade Sexual da OAB de Jundiaí

 

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