Vender merenda escolar, pode?

Vender merenda escolar, pode?
27 de janeiro de 2016 Assessoria de Imprensa

Vender merenda escolar, pode?

Certamente a forte exposição midiática de escândalos de corrupção envolvendo políticos, (- é claro, cabe aqui, um recorte visivelmente seletivo de maior ênfase a determinados possíveis escândalos, sobretudo de determinados partidos) colocam a esfera política em vulnerabilidade crítica ante o senso comum da sociedade. Cria-se um mantra onde a palavra corrupção, está imediatamente interligada a personalização de determinado símbolo político; que é alvo da mídia naquele momento.

Não quero aqui desqualificar a importância da imprensa livre na estrutura democrática, mas quero em claro tom afirmar, o papel irresponsável de despolitização e demonização da política que a grande mídia tem exercido. Como bem destacou o professor Leandro Karnal em uma das suas palestras; o melhor dos mundos, seria esse pregado pela imprensa, onde todos os problemas de corrupção que assolam o país, são de fato da presidenta, desse ou daquele partido e estão sempre na política. Pessoas que pensam assim, segundo o professor, são pessoas “realmente felizes”. (Veja o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=5EBdUYto1Io)

A corrupção corre pelo seio da sociedade e abriga a política não como seu elemento estruturante, mas como reflexo da dinâmica do interior de uma sociedade, que por si própria é corrupta.

Ontem (26/01/2016), a cidade de Jundiaí esteve no noticiário nacional, deixando de lado suas belezas e estabelecendo-se como vertente de práticas nefastas. A políciacivil (que de civil tem apenas o nome) encontrou em uma churrascaria do município, diversas latas de feijão e de carne, que são de uso exclusivo da merenda escolar das escolas estaduais de São Paulo. Em um momento onde o presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Fernando Capez (PSDB) é investigado pelo possível recebimento de propinas da fraude da merenda, encontramos aqui em nosso solo, um empresário que no auge do seu mau-caratismo, entende que o privilégio de apropriar-se de alimentos custeados pelos cofres públicos para venda particular, pode ser legítimo e inclusive, financeiramente vantajoso.

(Veja aqui a matéria: http://www.jj.com.br/noticias-25998-merenda-escolar-do-estado-e-desviada-para-churrascaria) Fato este, que corrobora para total desconstrução da ideia de que práticas de corrupção estão a cargo da política ou dos seus agentes diretos.

As práticas de corrupção, são práticas, e, portanto, socialmente construídas. Pensar o fim da corrupção, caminha na direção de criarmos mecanismos de transformação da própria vida social, de maneira que a quebra de conceitos e ações do cotidiano que fortaleçam tais atos, estejam na agenda não apenas dos aparatos de controle do Estado (poderes executivos, legislativos e judiciários), mas sobretudo, na agenda de uma sociedade que historicamente se estabelece e se constrói através da corrupção; -os tempos mórbidos da invasão portuguesa que nos digam.

É sem dúvida, um reducionismo intelectual, utópico e fantasioso o processo de caça às bruxas que a política brasileira e mundial sofre. O interesse de alguns, poucos, talvez dos sessenta e tantos indivíduos que detêm a renda de metade da população mundial, dão conta de acentuar o processo de despolitização de toda uma sociedade, fazendo-a crer em movimentos que estabelecem unicamente a manutenção da acumulação capitalista e a reprodução da desigualdade. O problema da corrupção é o problema dospróprios modelos de vida que são vendidos como ideais.

Em linhas gerais, vivemos em uma sociedade que é hipócrita por ser essencialmente corrupta e colocar essa corrupção sempre no lugar do outro, nunca em si mesma e diante do sistema que a organiza.

Sim, se de fato, a corrupção nos incomoda, podemos começar combatê-la não aceitando 10% de “gratificação” sobre a nota fiscal de um fornecedor, que constantemente contratamos para a empresa de alguém. Não aceitando vender feijão e carne desviados da merenda escolar. Mas podemos também, essencialmente, entendê-la como a prática que não se reduz ao indivíduo, que existe enquanto teia de relações e que portanto não tem face, partido ou posição social.

Agora, aos partidos de esquerda, cabe não replicar a lógica, cabe mostrar um outro modelo de sociedade, cabe a tarefa árdua do contraponto de conscientização das trabalhadoras e dos trabalhadores. Cabe dizer que a corrupção, não é e não pode ser o principal mecanismo organizativo de uma sociedade.

Missão difícil. Sigamos!

Por Lucas Forlevisi

Secretário de Juventude do PT Jundiaí

(foto: AgênciaBrasil)

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